Nestas últimas semanas aconteceu-nos o privilégio de testemunharmos o florescimento de um pássaro.
Não porque tenhamos observado um pássaro a nascer, mas porque todos os dias observamos o seu processo de morrer. O seu florescer. Sim, porque florescer significa nascer de novo, nascer de outra maneira.
Tudo o que é depositado na terra ganha uma vida nova, floresce de outra forma.
Todas as semanas os mini-cidadãos da Pólis Montessori – Educação para a Vida ocupam o jardim ao lado da igreja de Mafamude. Este é um dos muitos espaços públicos que temos vindo a habitar com as crianças.
Há umas semanas, enquanto ocupavam e brincavam no jardim, ouviu-se um sonoro aviso: está ali um pássaro morrido, ora anda ver!!!!
Com todo o cuidado e delicadeza que o corpo assume nestas horas grandes da existência, adultos e crianças aproximaram-se do passarinho. Afinal, ele ainda não estava morrido…
Observaram as feridas no pescoço e na asa…
Observaram as patas que mal se mexiam…
Observaram a respiração ofegante e lenta ao mesmo tempo…
Observaram o olhar distante que ocupava já aqueles pequenos olhos…
As perguntas chegaram:
“O que é que aconteceu ao passarinho?”
“Como ficou assim?”.
E o levantamento de hipóteses veio logo a seguir:
“Se calhar, caiu do ninho.”
“Ou um pássaro grande apanhou-o!”
“Aquele pássaro pequenino quer a mamã e o papá.”
“Aqueles pais devem estar à procura do filho.”
Num movimento muito natural e sem ninguém ter dito nada, algumas crianças começaram a recolher flores, penas, folhas, trevos, relva, caruma para oferecer ao passarinho que, entretanto, já tinha sido levado para a terra e colocado debaixo de um pinheiro.
Estas ofertas fruto da generosidade representaram um sinal tão bonito de que diante da fragilidade sabemos que não existe outro caminho se não o do cuidado, o da presença, o da companhia.
Foi muito emocionante testemunharmos este movimento de DAR e de DAR-SE. Pois muitas crianças quiseram ficar perto do pássaro, não o quiseram deixar enquanto estava a viver o seu processo.
Nos dias que se seguiram, as crianças voltaram ao lugar onde tinham deixado o passarinho. A cada dia, uma novidade.
Primeiro, o encontro com a morte do pássaro: tinha deixado de respirar, os seus olhos estavam fechados, o bico aberto e o corpo imóvel.
Depois, a descoberta da sua mudança de lugar: um animal ou alguma pessoa andou a mudar o pássaro de lugar para lugar.
Por último, o processo de decomposição: as larvas que chegam, as penas que começam a cair, os músculos que se tornam mais visíveis.
E, neste momento, uma criança recorda: “Os peixes quando morrem ficam na areia no fundo do mar. Depois, vêm uns bichinhos limpá-los e transformá-los em plâncton para os outros peixes vivos comerem.”
Vêm uns bichinhos para limpar. Esta observação é pura poesia!
Não vêm para comer, nem para devorar. Mas para limpar. Limpar até dar ao outro uma nova existência.
Não satisfeita com a sua observação, no dia seguinte esta criança trouxe uma enciclopédia onde este ciclo de renovação estava impresso, como um gráfico. Depois de abrir naquela página, ela disse: “Olha, é isto que está a acontecer ao passarinho. Isto é o ciclo da vida.”
E juntos concluímos que as larvas que estavam no corpo do passarinho o estavam a limpar para o transformar em terra; para lhe dar uma nova forma de existir.
“Sabia que os passarinhos, eles viram uma terra?”
Ouviu-se nesse dia, no jardim, a voz de uma criança que se dirigia às outras.
E, desde então, todos os nossos dias têm sido pautados por infindáveis cantos de pássaros, esses arautos da Primavera, da Vida Metamorfoseada!